O cantor e compositor Beto Gaspari é um artista bem sucedido em sua carreira profissional. Pra muita gente, esta frase pode soar exagerada. Ora, se suas músicas não tocam nas FMs da vida e nunca foram tema de novela; seu único CD (Das Águas) não foi lançado com estardalhaço “ao vivo” no Faustão ou em clip, no Fantástico; enfim, ele está fora dos limites do que se convencionou chamar de “artista bem sucedido”.
Acontece que há mais de 20 anos ele vive exclusivamente de sua música. Como cantor da noite, tem trabalho agendado por todo ano e ainda faz shows aqui e ali. Além disso, compôs várias músicas para teatro, a exemplo da peça A Incrível Peleja de Simão contra a Morte, de Cesário Candhi, que há anos vem arrebatando prêmios em festivais pelo Brasil afora.
É claro que, paralelamente, Beto trabalhou por mais de uma década na Secretaria Municipal de Cultura de Caxias. Mas isso só foi possível, graças ao prestígio que goza entre os artistas locais. E esse prestígio – convenhamos – ele conquistou em função da seriedade que dedica ao seu desempenho na música. E a mesma seriedade o compositor dedicou ao seu trabalho na Secretaria, o que fez dele um dos artistas que mais conhecem de políticas públicas de cultura, em toda a Baixada Fluminense.
E é sobre isso que Beto Gaspari nos fala, nesta entrevista ao Caxias do Futuro.
CF – Podemos dizer que o poder público municipal tem atuação no movimento cultural de Caxias?
BG – Não dá pra dizer que não tem atuação alguma, pois se existe um órgão gestor, Secretaria Municipal de Cultura, o governo acaba encaminhando algumas ações. Só que entre 2005 e 2011 tivemos cinco secretários diferentes, com idéias diferentes do que vem a ser prioridade na cultura local. E cada um que chega ignora o que vinha sendo encaminhado antes, substituindo por outras propostas que nem sempre são o melhor para a população. Além disso, outro problema grave é que a Secretaria completou 20 anos em 2011, e nunca se abriu um concurso público para a ocupação de seus cargos técnicos. Sendo assim, cada titular que entra exonera os quadros que encontra, pra preencher as vagas com cabos eleitorais do prefeito ou vereadores. Daí, o órgão passa a ser um cabide de empregos.
CF – Você não acha que eles confundem cultura com entretenimento?
BG – É, mas entretenimento também pode ser visto como cultura. Nada impede que o poder público promova eventos com a indústria de cultura de massa. O que não deve é investir só nisso, deixando de lado a produção do ativista cultural da cidade. Não há como negar, claro, que política cultural no município é uma coisa recente, como já disse, tem 20 anos. Afora o desinteresse que rola, todo mundo sabe, tem também a falta de conhecimento do fazer cultural.
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| Beto Gaspari, com Ricardo Barbieri e João Luiz |
CF – Em que consiste esse fazer cultural?
BG – Eu diria que a política cultural deve ser atacada em três frentes: a cidadã, a econômica e a simbólica. A primeira delas é a que inclui o cidadão no espaço em que vive. A segunda é quanto isso pode render proventos, para os produtores culturais. E a última são os ícones culturais, aquilo que é produzido pelo cidadão. Nessa escala, trabalha-se com o fomento à produção, a preservação do patrimônio material e imaterial e o cidadão passa a cuidar de tudo isso, pois ele se acha incluído no processo.
CF – Ou seja, dar condições para que o cidadão desenvolva seu trabalho...
BG – Isso. Porque a função do órgão gestor de cultura não é criar e desenvolver projetos, mas fomentar a produção local. Outra função é criar acessibilidade ao consumo dessa produção. Aqui em Caxias, por exemplo, temos um milhão de habitantes e quase todos os equipamentos culturais estão no primeiro distrito. Tirando a Casa Brasil e a Biblioteca Monteiro Lobado, em Imbariê, e a Biblioteca Rodolfo Arlidt, em Primavera, que opção tem os cidadãos dos outros distritos?
CF – Caxias pode ser considerada um mercado cultural?
BG - O mercado, apontado como solução por muitos, na Baixada é globalizado, o que quer dizer que aqui somos bombardeados por tudo que vem de fora. O artista local é pouco conhecido da população como um todo, gerando sua desvalorização e subaproveitamento, o que nos deixa na mesma situação da maioria das cidades brasileiras, que não são grandes metrópoles. Só que a Baixada Fluminense, integra a região metropolitana do Grande Rio. Diante da inexistência de um mercado local consistente, o poder público, então, ganha importância no ambiente cultural, já que tem a obrigação constitucional de prover cultura para os cidadãos. Só que na maioria dos casos, infelizmente, isso não acontece. E quando acontece, é através de uma política sem planejamento, imediatista e eventista, que colabora muito pouco ou até desmonta o mínimo arcabouço que os ativistas culturais demoraram anos para construir.
CF – Qual é a dotação orçamentária da cultura, em Caxias?
BG – Em 2011 foi 0,15% de cerca de R$ 2 bilhões e cem. Deu alguma coisa em torno de três milhões. Mas desse montante, mais de um milhão é consumido pela folha de pagamento. Além disso, legalmente o prefeito tem direito a fazer remanejamento de verbas pra cobrir outras contas. Quando isso acontece, de onde sai grana primeiro? Da Secretaria de Cultura. Os políticos locais, executivos e legislativos (com raríssimas exceções), não percebem cultura como ferramenta fundamental na construção da identidade e memória do povo. Na verdade enxergam sua pasta como uma grande produtora de “eventos” e “festinhas”, ou ainda como o lugar onde se colocam aqueles aliados políticos a quem se deve algum favor. E quando percebem, não tomam atitudes concretas no fortalecimento do órgão.
CF - Quais seriam essas atitudes?
BG – A criação, por exemplo, de órgãos de gestão cultural, independentes de outras pastas, com autonomia para os gestores, com orçamento não contingenciável de pelo menos 1% da arrecadação municipal; concurso público para a área cultural, configurando um quadro estável e técnico, visto que nas diversas especificidades da área já existem cursos de nível médio e superior; enfim, no meu entender, políticas públicas de cultura passam, obrigatoriamente, por uma gestão democrática da cultura.
CF – E como funcionaria isso?
BG – Com a realização regular e com periodicidade (pelo menos a cada dois anos) da Conferência Municipal de Cultura; consolidação desse Conselho Municipal que temos, para que possa propor, fiscalizar e acompanhar a construção da política municipal de cultura e execução orçamentária da pasta. Poderíamos falar, ainda, na criação do Plano Municipal de Cultura, usando como base as deliberações das Conferências e do Conselho. Isso criaria o balizamento e a continuidade das políticas públicas de cultura, por um período mínimo de dez anos, sendo reavaliado e podendo sofrer ajustes a cada Conferência. Ou seja, cultura como política de Estado, não somente de governo.
Entrevista: Eldemar de Souza




excelente entrevista, parabens ao entrevistado, entrevistador e ao veículo.
ResponderExcluirValeu, Barbieri... Se prepara que o Caxias do futurovai pegar você também... Mas fica tranquilo, é um blog do bem... :-)
ResponderExcluirDescendo o sarrafo! Adorei!!!
ResponderExcluirMuita gente tem que ler isso...
Apesar da suspeição, sensacional, tanto a ideia da abordagem do Caxias do Futuro, buscando pessoas com conhecimento técnico em suas matérias para discorrerem sobre os temas, quanto ao entrevistado, que por diversas vezes pudemos conversar a respeito desse tema. Parabéns pelas infs. tão didaticamente colocado.
ResponderExcluirBoas Falas! Todos que de alguma forma trabalha com cultura, vamos partir para ação, já é passada a hora, temos que mudar esse cenário. VAMOS A LUTA!!!
ResponderExcluirSou Suspeito, pelos laços pessoais que nos une a + de 30 anos, mas, o Beto é um apaixonado pelo que faz!E quando fazemos por paixão o nosso ofício, fazemos a diferença!Parabéns Beto pela entrevista e que continuemos a buscar e construir a sociedade dos nossos sonhos! Samuel Maia - Secretário Municipal de Meio Ambiente,Agricultura e Abastecimento
ResponderExcluirTambém sou suspeito pelo grau de parentesco. Mas justamente por isso conheço Beto muito bem e sei de sua lisura, sua capacidade técnica, sua competência e seu amor pela cultura, por Duque de Caxias e pela Baixada Fluminense. Parabéns, Beto! Parabéns, Edelmar, pela ótima entrevista!
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