domingo, 5 de fevereiro de 2012

Entrevista com Fábio Pereira - “É assim: os empresários mandam e o prefeito obedece”

Nem o tempo chuvoso impediu que várias pessoas se reunissem na Praça do Pacificador – início da noite da sexta feira de janeiro (27/01) –, para protestar contra os preços abusivos das passagens dos ônibus municipais em Caxias. Em sua maioria, essas pessoas são militantes do movimento Caxias de Cara Nova, que em novembro do ano passado conseguiu a façanha de recolher 25 mil assinaturas contra a majoração das tarifas. O abaixo-assinado foi devidamente encaminhado ao prefeito. Mas Zito, dando uma de joão-sem-braço, decidiu ignorar o documento e ceder às pressões dos empresários do setor.
À frente do Caxias de Cara Nova está o professor de geografia Fábio Pereira, que já tem história na luta contra os empresários do transporte no município. Como líder estudantil, desencadeou um movimento vitorioso, que garante o passe livre aos estudantes caxienses. Atualmente,  entre outras atividades, Fábio tem se dedicado ao PVNC (Pré Vestibular Comunitário para Negros e Carentes), onde é professor voluntário, e dá palestras a convite  dos vários movimentos populares de Caxias.
Por sua experiência, Fábio Pereira conhece em profundidade os mais graves problemas do município. E aponta saídas alternativas, como no caso do transporte público, tema central desta entrevista ao Caxias do Futuro.

CF – O que vocês pretendem, exatamente, com esta panfletagem?

FP – Queremos dar prosseguimento a um movimento já existente na cidade, que é a luta contra o alto custo das passagens. Este movimento viveu um momento histórico no ano passado, quando conseguimos recolher mais de 25 mil assinaturas de cidadãos caxienses, contra o aumento das tarifas que o prefeito estava pra conceder. Infelizmente, Zito foi contra a vontade do povo e, sem nenhuma vergonha, se curvou aos interesses dos empresários, liberando o aumento das passagens dos ônibus municipais de Caxias. E é contra isso que estamos protestando. 

CF – Por que as passagens são tão caras em Caxias?

FP – Porque os empresários financiam campanhas eleitorais. E como as campanhas estão cada vez mais caras, eles exigem um retorno de investimento cada vez maior. Isso faz com que os candidatos não tenham projetos, mas só compromissos com os financiadores de suas campanhas. Os candidatos viraram produto, como sabonete, que estão aí para dar lucro.

CF – Existe alguma coisa que se possa chamar de políticas públicas, em relação ao transporte coletivo no município?

FP – Essa mesma política que a gente vê aí, em tudo. Caxias é uma vitrine, cheia de penduricalhos, enfeites, mas nada que realmente atenda às necessidades básicas do cidadão. Um excelente exemplo disso foi a plantação de palmeiras pela cidade. A população precisando de serviços essenciais e o prefeito gastando milhares de reais em palmeiras. E quanto ao transporte, que foi a sua pergunta, não há o menor interesse em um debate amplo com a sociedade, a respeito do tema. Então, as coisas funcionam assim: os empresários mandam e o prefeito obedece, à revelia do povo que paga a conta.

CF – Como tem sido a reação a este movimento?

FP – Como conseguimos um número expressivo de cidadãos se manifestando contra, através do abaixo assinado, podemos dizer que conseguimos abrir um debate. Só que existem aí dois pólos. Um deles, formado por lobistas dos empresários, defende que quem deve determinar o preço das passagens são eles, e ponto final. No outro pólo estão os populistas, que defendem propostas fáceis, eleitoreiras e não questionam o lucro abusivo dos empresários. A perspectiva é apenas eleitoral, sem um compromisso profundo com o debate sobre um sistema de transportes eficiente, barato, digno e sustentável. E, no final, quem vai continuar pagando a conta é a população, pois defendem tarifa reduzida subsidiada com dinheiro público. Ou seja, menos dinheiro pra educação, saúde, cultura, habitação popular, meio ambiente...

CF – E a população, reivindica o quê?

FP – Nós queremos preço justo da passagem. E, além disso, tarifa única e bilhete único municipal, qualidade nos ônibus e fiscalização da prefeitura. Sim, porque o governo municipal distribui as concessões, mas não fiscaliza o serviço prestado. Tem que fiscalizar, pra ver como estão as condições dos veículos, se estão cumprindo com a regularidade nos horários, respeitando os direitos dos idosos, dos deficientes e dos estudantes. E queremos também o fim dos motoristas que são ao mesmo tempo cobradores, pois isso gera insegurança aos passageiros e desemprego pelo acúmulo de funções.

CF – Existem propostas alternativas, contra o problema do transporte público em Caxias?

FP – Sim. Pra começar, é necessário que se estabeleça um debate técnico, sobre a questão. Mas isso teria que ser fora do período das eleições, pra evitar as promessas mirabolantes de campanha e chamando órgão sério e e científicos, como a Coppe da UFRJ. E aí, também discutir a ampliação do transporte ferroviário, metrô, as possibilidades de se chegar ao Rio de barca e a criação de muitas, muitas ciclovias. Em Nova Iguaçu, por exemplo, fizeram um trabalho interessante neste sentido. Recapearam algumas ruas do Centro e delimitaram com gelo baiano o espaço de 1,40m de largura, destinado aos ciclistas. E o mais interessante: a população passa a andar mais de bicicleta - pela segurança, custo menor, sem engarrafamentos e ainda praticando esporte, consequentemente, com mais saúde. Isso custa muito barato e, bem conservado, dá até um aspecto bonito à cidade, além de torná-la mais saudável e sustentável.

CF – Como você avalia o movimento, em termos de resultados, até agora?

FP – Bem, o que está resultando do nosso movimento é que os empresários, que no momento estão levando o bônus, vão ter que arcar com o ônus de ver seu candidato derrotado nas urnas, nas próximas eleições. Eles vão investir pesado na reeleição do atual prefeito, mas a população está tomando consciência dessas coisas e sabe muito bem que a responsabilidade é desta administração desastrosa.  Agora, o resultado mais imediato é ver atualmente políticos defendendo passagem a um real. Isso é reflexo do nosso movimento. Por isso é que não vamos dar trégua. A nossa proposta é fazer um ato público toda última sexta feira do mês e o nosso lema é: Resistir até a tarifa cair. 

Entrevista Eldemar de Souza   

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