sábado, 14 de abril de 2012

Caxias vive a era do caos administrativo


Com território delimitado em 468,3 km², ocupado por 855 046 pessoas (Censo de 2010), o município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, aparentemente se assemelha a milhares de outros encravados pelo país afora. Apesar de sua proximidade com a capital do Estado (míseros 27 quilômetros), seus habitantes enfrentam problemas infraestruturais tão graves, quanto os que afligem moradores de rincões longínquos.  Se avaliarmos o histórico político, com capítulos de coronelismos e jagunçadas, aí é que Caxias tem mesmo a ver com a realidade interiorana do Brasil.
Mas as aparências param por aí.  É que diferentemente das demais cidades enquadradas no perfil acima, Caxias tem um potencial de indústria, comércio e serviços gerador de uma fortuna. E essa arrecadação põe a cidade em 15º lugar, entre as que mais arrecadam no país – à frente de 18 capitais. Na relação do PIB (Produto Interno Bruto) do Estado, só perde pro Rio de Janeiro.
Em contrapartida, de acordo com o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), criado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a fim de avaliar a qualidade de vida dos espaços habitados no planeta, o município dorme lá no patamar 52, dentre os 91 municípios fluminenses. 
Vivos e mortos

Em Caxias a saúde pública é precária, pois faltam profissionais e equipamentos ao Moacyr do Carmo, que se tornou o único hospital municipal, desde que o prefeito desativou o Hospital Geral Duque de Caxias, em seu atual mandato. Da educação não se pode falar, sem fazer referência a prédios escolares desmoronando, com alunos estudando em galpões. Não há o que se possa chamar de urbanização e saneamento básico, haja vista a situação caótica que assola o município a cada chuva. O transporte urbano é o mais caro do país e não oferece conforto, segurança ou pontualidade aos usuários.

A administração municipal negligencia de tal modo as políticas públicas, que até os cemitérios estão se transformando em cenário de filmes de terror, com sepulturas abertas, pedaços de ossos, restos de roupas e chumaços de cabelos espalhados por todos os cantos. Além disso, 18 mil famílias de servidores municipais, incluindo aposentados e pensionistas, estão recebendo seus vencimentos com atraso. Ou seja, não há respeito pelos mortos nem, principalmente, pelos vivos.

A fim de justificar tamanho desastre administrativo, o prefeito José Camilo Zito alega que não tem dinheiro. Segundo ele, grande parte do que arrecada se destina a cobrir dívidas herdadas do governo anterior. Por seu lado, o antecessor Washington Reis usava a mesma desculpa: atribuía a “falta de verbas” ao “rombo” deixado na prefeitura pelo gestor que lhe antecedeu, ninguém menos que o atual Zito. 

Sete chaves

É possível mesmo faltar dinheiro aos cofres da prefeitura caxiense? A julgar por sua posição nos PIBs do estado e do país, a resposta é não. Afinal, a cidade conta com cerca de 900 indústrias, incluindo a Reduc (Refinaria Duque de Caxias), que é a jóia da coroa desse parque industrial. Além disso, estão instalados em Caxias mais de 10 mil estabelecimentos comerciais, muitos deles filiais de grandes redes e conglomerados. Todo este movimento gera muito, muito dinheiro. Mas, quanto? Quem saberá?

Dando cumprimento à Constituição Brasileira, que torna obrigatória a prestação pública das contas de governos em todos os níveis, no início deste ano o secretário municipal de Fazenda, Raslan Abas, esteve no plenário da Câmara para falar sobre receita e despesa da municipalidade, referentes ao último trimestre de 2011. Apresentou cifras e cifras sobre uma coisa e outra, mas nada que possa ser comprovado pelo cidadão contribuinte. Isto, porque a Secretaria de Fazenda não disponibiliza essas informações em seu site na internet. O montante que entra, que sai e pra onde sai é  segredo guardado a sete chaves.

De forma semelhante é tratado o Orçamento Anual do município. Sabe-se que ele é votado ao fim de cada ano, com vistas ao ano seguinte. Fala-se que estão previstos gastos em valores que ultrapassam R$ 2 bilhões. Mas não se sabe o valor exato, porque não há dados disponíveis a consultar. Para elaborar este trabalho, fomos buscar a informação na Câmara. Após passagem por vários setores, nos disseram como se procede para arrancar o segredo. Encaminha-se um requerimento ao presidente da Casa, solicitando sua liberação. Se ele deferir, manda abrir um processo com prazo de duração indeterminado. Fizemos e encaminhamos o documento. Agora, vamos aguardar o desenrolar do processo.

Reportagem: Eldemar de Souza